FONTE: WWW.SECULODIARIOCOM.BR
Vitória (ES), edição de fim de semana
'Na reumatologia, a exemplo da cardiologia, tempo também é dano'
A luta contra a dor que acomete
mais de 30% da população de Vitória
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José Rabelo
("Os grandes sofrimentos maiores ainda se tornam à vista do que poderia aliviá-los". William Shakespeare)
Pesquisa concluída recentemente pelo serviço de reumatologia do Hospital Universitário Cassiano Antônio de Moraes (Hucam) revelou que 30,4% da população Vitória sofrem de algum tipo de dor em função das chamadas doenças reumáticas. A pesquisa - "Prevalência das Doenças Musculoesqueléticas na População Adulta de Vitória - um Estudo utilizando o Questionário Copcord" - será publicada, em breve, em uma das mais renomadas revistas especializadas no assunto, a "Clinical and Experimental Rheumatology", tamanha a importância do trabalho desenvolvido pela doutora em Reumatologia pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), Valéria Valim e sua equipe.
Valéria explica que o projeto de pesquisa atende a uma proposta nacional da Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR), que quer fomentar centros de pesquisa em cidades que estejam fora do eixo Rio-São Paulo. Para desenvolver o trabalho, Valéria contou com a ajuda da reumatologista Ana Maria Pereira e da professora de Bioestatística Eliana Zandonade. Ela também destaca que a colaboração dos alunos de Medicina foi fundamental para executar a coleta de dados em um universo de 600 pessoas.
As pesquisadoras utilizaram o questionário Copcord (Controle de Doenças Reumáticas Orientado para a Comunidade) para rastrear a existência de doenças musculoesqueléticas entre a população da Capital. Os questionários foram aplicados em pessoas de ambos os sexos, com idade variando entre 18 e 65 anos. "Quem apresentava algum tipo de dor ou incapacidade funcional foi avaliado por um reumatologista. Tivemos até que realizar testes laboratoriais e radiografias de articulações em alguns deles, para confirmar o diagnóstico", explica Valéria Valim.
O estudo, coordenado pela pesquisadora capixaba, apontou que pelo menos 23,2% dos pacientes avaliados apresentam alguma limitação para realizar atividades rotineiras, como dirigir, vestir-se, trabalhar, andar ou comer. As conhecidas dores lombares (lombalgia) são as que mais atingem a população: 7,6%; em seguida, aparecem as dores musculares difusas e fibromialgia, com 5,5%; artrose, com 5%; tendinites, bursites e síndrome miofacial, 4,5%; e artrite reumatóide, 0,2% de incidência. Além disso, as dores não-específicas - aquelas que não permitiram identificar a procedência e a causa - foram observadas em 21,6% das pessoas.
A especialista destaca ainda que tão importante quanto os dados apurados, são os indicadores que o estudo revelou para reorientar as ações do poder público no atendimento aos pacientes que sofrem de doenças reumáticas no Estado. "Acredito que este estudo vai levantar novas argumentações e permitir que apontemos intervenções na área da reumatologia. Algumas soluções são simples, como o agendamento de consultas para pacientes reumáticos. Hoje, o atendimento oferecido pelo governo do Estado, nos chamados Centros Regionais de Especialidades (CREs), é caótico. O paciente que é consultado pela primeira vez, não tem garantia de retorno, ou seja, ele volta para o fim da fila para remarcar um retorno. Isso compromete bastante o tratamento, porque a pessoa que sofre de uma doença crônica precisa receber um atendimento sistemático".
- Século Diário: A pesquisa faz um levantamento sobre a prevalência de doenças reumáticas na população adulta de Vitória. Quais os principais apontamentos constatados no estudo?
- Valéria Valim: Nós sabemos que a dor crônica é muito prevalente. A informação de que 30% da população sofrem de dor é um dado mundial. Aqui no Brasil, há um estudo que foi feito em Montes Claros (MG), que apresentou um resultado semelhante ao nosso. De qualquer maneira, nós queríamos realizar o estudo no Espírito Santo com o objetivo de levantar elementos que pudessem orientar uma estratégia de planejamento de saúde pública para o Estado. Precisávamos de dados regionais. Na ciência, uma informação deve ser conferida novamente. Então é relevante que você tenha duas fontes de informação congruentes. Constatamos que 30,4% da população de Vitória sentem dor, de maneira menos ou mais severa, mas que de uma forma ou de outra, impacta na qualidade de vida dessas pessoas.
- Os dados levantados são importantes também para sensibilizar o poder público?
- Exatamente. Quem trabalha no serviço público sabe que os pacientes que sofrem de doenças reumáticas são atendidos com morosidade. Normalmente, quando são atendidos já apresentam alguma deformidade e se queixam que já 'convivem' com a dor por um longo tempo. Isso torna o tratamento muito mais complexo. Na cardiologia, se costuma dizer que tempo é dano. No caso do coração, se você não fizer um diagnóstico de infarto nos primeiros minutos o paciente corre o risco de morrer. Esse jargão da cardiologia pode ser aplicado à reumatologia. Porque, quanto mais tempo o paciente fica doente, maiores serão os problemas de articulações, deformidades e de depressão. Quanto mais precoce o tratamento, maiores são as chances de o paciente restabelecer sua capacidade funcional e melhorar sua qualidade de vida.
- Dados apontam que as doenças reumatológicas afastam muitas pessoas do trabalho. A senhora confirma?
- Sem dúvida. As dores musculoesqueléticas são uma importante causa do afastamento do trabalho. São pessoas que estão na fase produtiva, mas que ficam impossibilitados de trabalhar por causa da doença. Por isso, o tratamento precoce é fundamental não só para o paciente, mas também para a sociedade.
- A senhora disse que os dados apurados no Espírito Santo são semelhantes aos de Montes Claros. A prevalência da doença muda de região para região no Brasil?
- Existem diferenças se considerarmos as regiões Norte e Nordeste do País. Isso pode ser explicado pela etnia. Por exemplo, em Belém do Pará existe uma etnia indígena muito presente. Em alguns estados do Nordeste, como na Bahia, por exemplo, temos a influência da etnia negra muito forte, em comparação a outros estados do Sul e do Sudeste. A etnia é sem dúvida um fator determinante para a prevalência de doenças auto-imunes em algumas regiões. É preciso considerar os fatores genéticos e ambientais. Por exemplo, nos locais em que há uma maior incidência de radiação solar, a freqüência de lúpus eritematoso será maior. Está provado que em Natal (Rio Grande do Norte), a incidência de lúpus eritematoso é maior se comparada a outras partes do mundo. A explicação pode estar no fator ambiental.
- O pesquisador Momtchilo Russo, da Universidade de São Paulo, apontou que a incidência de doenças auto-imunes era maior em alguns países europeus em relação a alguns países africanos, justamente onde a estrutura de saúde é mais precária.
- É verdade. Por exemplo, sabemos que nos locais onde há uma maior incidência de verminoses - indicador de que a saúde naquela determinada localidade é precária -, o aparecimento de doenças auto-imunes é menor. Talvez a presença do verme module o sistema imunológico. Nós costumamos até brincar e dizer que é melhor ter uma verminose do que uma artrite reumatóide ou um lúpus eritematoso. Por isso que quando realizamos um estudo multicêntrico no Brasil, tentamos incluir diferentes regiões. Nós conhecemos a grandiosidade do Brasil e sabemos que as diversidades étnicas, ambientais, sociais e econômicas precisam ser consideradas. Mas é importante ressaltar que o estudo de Montes Claros é muito semelhante ao nosso.
- A senhora destacou que o atendimento aos pacientes que sofrem de doenças reumáticas, na rede pública, é geralmente tardio, o que torna o tratamento mais complexo e difícil. A pesquisa pode ter um papel importante no sentido de apontar soluções para que o poder público reveja sua política de saúde na área de reumatologia no Estado?
- As pesquisas normalmente são realizadas no eixo Rio-São Paulo. Entretanto, há uma preocupação da Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR) em fomentar o desenvolvimento de pesquisas em outras regiões do País. O Serviço de Reumatologia do Hucam (Hospital Universitária Cassiano Antonio de Moraes) faz parte de um projeto nacional de 'Qualificação de Pesquisadores a Distância'. Sou uma pesquisadora qualificada em São Paulo, mas fiz a opção de retornar ao Espírito Santo, sendo assim, ou encerro minha carreira de pesquisadora ou criamos as condições para realizar pesquisas no Estado. Voltando à sua pergunta, acho que é o governo e as autoridades da área de saúde que podem decidir suas prioridades, mas os profissionais são importantes para o direcionamento das políticas públicas que serão implementadas. Acredito que este estudo vai levantar novas argumentações e permitir que apontemos intervenções na área da reumatologia. Algumas soluções são simples, como o agendamento de consultas para pacientes reumáticos. Hoje, o atendimento oferecido pelo governo do Estado, nos chamados Centros Regionais de Especialidades (CREs), é caótico. O paciente que é consultado pela primeira vez, não tem garantia de retorno, ou seja, ele volta para o fim da fila para remarcar um retorno. Isso compromete bastante o tratamento, porque a pessoa que sofre de uma doença crônica precisa receber um atendimento sistemático.
- O Espírito Santo é pioneiro no fornecimento de medicamentos biológicos a pacientes que sofrem de doenças reumáticas. Qual a importância desta iniciativa para o tratamento?
- Nesta parte estamos bem. O Espírito Santo foi realmente o primeiro estado a padronizar o uso das drogas biológicas. A terapia biológica é uma nova opção de tratamento para pacientes com doenças auto-imunes. O medicamento biológico tem a vantagem de ser específico, ao contrário das drogas tradicionais, que têm uma ação genérica. É como disparar um 'tiro de canhão' para atingir vários alvos ao mesmo tempo. Já na terapia biológica, você vai agir diretamente naquela molécula que é a causa da inflamação. Ela passa a ser o alvo terapêutico. Esta classe de medicamento, sem dúvida, é uma revolução no tratamento das doenças auto-imunes, mas não pode ser vista como solução para todos os pacientes. Muitos pacientes obtêm melhores resultados com a terapia tradicional.
- Mesmo porque, o uso de drogas biológicas é bastante recente no Brasil?
- Sem dúvida. Os primeiros biológicos têm aproximadamente 10 anos de uso no exterior. No Brasil, eles passaram a ser usadas há cerca de cinco anos. Muitos medicamentos foram inicialmente liberados e em seguida retirados do mercado. Nós sabemos, no entanto, que a terapia biológica apresenta de 10 a 20% de eficácia em comparação aos medicamentos tradicionais. É um ganho significativo, mas não podemos considerá-los milagrosos. É compreensível que o paciente que está recebendo uma medicação nova acredite que aquela terapia irá curá-lo definitivamente. É importante destacar que até agora todas as drogas biológicas foram utilizadas em conjunto com medicamentos tradicionais. O tratamento padrão ainda continua sendo muito importante para promover a melhora do paciente. Até o momento, nenhum profissional ousou excluir o tratamento padrão e manter somente o biológico. Temos que considerar os biológicos como uma alternativa ao tratamento tradicional.
- Há quanto tempo a Sesa fornece os medicamentos biológicos na rede pública e quantos pacientes são beneficiados?
- Os biológicos são distribuídos há pelo menos cinco anos de forma estruturada. Os custos dos medicamentos biológicos são bem elevados. Dependendo do medicamento, um tratamento pode custar de 20 a 50 mil reais por mês. Hoje, temos cerca de 300 pacientes fazendo uso de medicação venosa. Estimo que, no total, 500 pacientes estejam sendo beneficiados com os biológicos no Espírito Santo.
Escritos indignados e propositivos de Fernando Claro. Contra direita golpista e contra as mídias que desinformam e mentem. Pela Soberania do Brasil. Pela Supremacia da Constituição Federal. Pela tolerância, compreensão e respeito para com as diversidades. Em defesa dos Direitos Humanos. A hora é essa! Vamos nessa?
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