ODE (à tuberculose) - Dr. Jayme Santos Neves

ODE 
“Que saudade de ti, Tuberculose!” 
Do clima de montanha: Suíça, Belo Horizonte, Campos do Jordão, Campinho de Santa Izabel. Da calma e do repouso, do ar puro, da alimentação farta e sadia. 
Tuberculose dos poetas, dos artistas, dos escritores, da angústia fértil de Kafka, da cérea palidez de Casimiro, do sangue de Castro Alves, da tristeza de Antonio Nobre, “ó neurastenizante figurinha magra, esquelética, transfigurada morre morrendo como chama mística da lâmpada eucarística de uma capela abandonada”. 
Saudade de ti, dama branca que inspirou as Floradas da Serra de Dinah, a Montanha Mágica de Thomas 
Mann e os versos gêmeos de Assis e de Bandeira. 
“cuidado amigo com o poeta 
não o faças rir. 
 Pode acontecer 
que venha a tosse 
e o poeta tossindo 
o poeta tossindo pode morrer”. 
Ah, romantismo de viver morrendo de Gonçalves Dias, de Jonas Montenegro, de Augusto dos Anjos. 
Hemoptises de Álvares de Azevedo, tão revividas em suas “Lembranças de morrer”. Transparência vibrante de Rousseau, delírios da Duse e da Bernhardt, suores noturnos de Mozart. 
“Viva o eterno moribundo!” saudava Arthur Azevedo a seu amigo Júlio Ribeiro. 
“Interrompi minha agonia apenas para abraçá-lo”, dissera Voltaire com altiva serenidade, e Baudelaire define-se, com orgulho, um tísico profissional. 
Ah! Tuberculose horizontal do eretismo fácil, das noites claras de Goethe e de Musset, dos arroubos de Teresa de Jesus, das chagas místicas de São Francisco. Violino espiritual de Paganini, longos cílios de Mimi, lábios ardentes da Dama das Camélias, valsas e prelúdios de Chopin. Tuberculose dos orgasmos febris, matriz de santos, oficina de gênios, não és mais a mesma. Perdeste os teus encantos. 
Não mais repouso, sanatórios, climas, licenças prolongadas, ócio com dignidade, pensões e aposentadorias 
integrais... 
Agora apenas drogas, drogas e drogas. 
Sequer uma injeção. 
Tuberculose vertical. 
Droga! 
 Jayme Santos Neves 
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